✧ O Corpo que Fala: a imagem corporal na clínica junguiana
- Ser autointegrado
- 24 de abr. de 2025
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Na clínica junguiana, é comum que o corpo chegue antes das palavras. Ele aparece curvado, tenso, escondido. Às vezes, vem em forma de sintomas persistentes — dores, distúrbios alimentares, posturas defensivas — ou em queixas mais sutis: “não gosto do meu nariz”, “tenho vergonha das minhas pernas”, “me sinto enorme perto das outras meninas”. Essas frases, aparentemente simples, carregam histórias profundas.
Uma adolescente que se recusa a usar roupas que mostrem o corpo pode, inconscientemente, estar tentando esconder algo que ainda não pode ser visto. Não é apenas uma questão estética — é simbólica. O corpo se torna o lugar onde o conflito interno se manifesta: vergonha, medo, desejo e necessidade de pertencimento se misturam.
Na infância, os primeiros registros corporais se formam no vínculo com os cuidadores. Uma criança que é elogiada apenas quando está “bonita”, “arrumada”, ou “comportada”, aprende que o corpo é uma ferramenta de aceitação. Outra, que é criticada por sua aparência, por sua fome, por sua espontaneidade, pode internalizar a ideia de que há algo de errado com seu existir. Essa relação primária com o corpo não é esquecida — ela se transforma em imagens psíquicas que seguem moldando a autoimagem.

Na clínica, essas imagens retornam — muitas vezes de forma distorcida — nos complexos ligados ao corpo. Uma paciente que diz se sentir “suja” ou “desagradável” ao comer pode estar expressando algo muito mais arcaico do que uma simples insatisfação com o peso. Pode estar lidando com um complexo que liga prazer e culpa, nutrição e punição, desejo e abandono. O corpo é o palco em que essa dinâmica se revela.
Durante a adolescência, o corpo sofre mudanças que nem sempre são acompanhadas por uma estrutura psíquica capaz de acolhê-las. A puberdade é um verdadeiro rito de passagem, onde o velho self morre e um novo ainda está por nascer. Nessa travessia, é comum que o corpo seja vivido com estranheza, como um território desconhecido. Muitas adolescentes vivem um luto silencioso do corpo infantil e, ao mesmo tempo, uma ansiedade frente ao feminino que começa a emergir.
Nesse contexto, o corpo é muitas vezes “atacado” com dietas, autocríticas, tentativas de controle. Mas, do ponto de vista simbólico, essas atitudes são formas de tentar ordenar o caos interno. O ego tenta dominar o corpo como forma de sobreviver a um mergulho inconsciente que ainda não tem nome. Por isso, quando uma paciente se angustia com um aspecto corporal, a escuta junguiana não responde com correção ou racionalização. Ela pergunta: “o que essa parte do corpo quer me mostrar?”
Sonhos também costumam trazer material precioso. Não é raro aparecerem imagens de corpos dilacerados, nus, escondidos ou em transformação. Uma paciente sonha que está nua em público e tenta se cobrir com um lençol: uma representação clara da exposição emocional e do sentimento de inadequação. Outra sonha que sua pele se descasca como a de uma cobra: a psique anuncia que há um processo de renascimento simbólico em curso, mesmo que ele traga dor e medo.
Com o tempo, a cura se dá não ao tentar “consertar” o corpo, mas ao habitar esse corpo com mais verdade. Ele deixa de ser um inimigo ou um obstáculo, e se torna uma ponte entre o ego e a alma. Um corpo que dança, respira, sente, chora. Um corpo que lembra à paciente que estar viva é, antes de tudo, estar encarnada.
E nesse caminho, a psicoterapia junguiana oferece imagens, símbolos, mitos, contos e sonhos como aliados. Porque quando uma mulher, mesmo jovem, começa a se ver com os olhos da alma — e não apenas com os olhos da cultura — algo profundamente curativo acontece.
Ela começa, aos poucos, a re-habitar seu corpo como templo, e não como prisão.
Juliana Bezerra Vasconcelos - CRP 11/22411
Psicóloga Junguiana
atendimentos online (85) 98736-9156




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